O artigo de Dorrit Harazim, publicado em 7 de dezembro de 2025 em O Globo, põe a nu um mecanismo de poder que se camufla na entrelinha do discurso de líderes de extrema-direita como Donald Trump e Jair Bolsonaro e, agora, Flávio Bolsonaro: a criação de inimigos imaginários para consolidar o poder interno. Essa tática não se limita a apontar adversários, mas sim a empregar um linguajar que é, em sua essência, desumanizador, tornando o “outro” indesejado em algo descartável.
A Estratégia do “Nós” contra “Eles”
O cerne da desumanização reside na distinção cruel entre “Nós” e “Eles”, ecoando o poema de Rudyard Kipling citado no texto: todas as pessoas de bem são “Nós”, e todos os outros são “Eles”.
No universo da direita radical, essa distinção é reforçada por meio de epítetos de desprezo. Donald Trump, por exemplo, demoniza o imigrante e faz do combate à imigração sua arma política mais potente neste segundo mandato. Ele usa o artifício de insultos a cidadãos de “países de merda” ou do “Terceiro Mundo”.
O objetivo não é apenas ofender, mas obnubilar o restante do noticiário e solidificar o apoio interno. Ao descrever os somalis com termos como “lixo,” “chegam aqui saídos do inferno,” e “eles fedem,” a fala de Trump transforma seres humanos em repulsivas entidades biológicas ou objetos a serem descartados.
Robert Pape, pesquisador da Universidade de Chicago, ressalta o caráter desumanizador desse vocabulário, afirmando que a palavra “lixo” não se refere a algo humano, mas a algo descartável. Essa linguagem é um pré-requisito para a violência de Estado: se o “outro” não é humano, suas necessidades, direitos e até sua presença podem ser sumariamente negadas. É o que permite que uma secretária de Segurança Interna, como Kristi Noem, peça para banir totalmente países desgraçados que inundam a nação de assassinos, sanguessugas e viciados.
O Paralelo com o Discurso de Bolsonaro
No Brasil, o histórico de falas de Jair Bolsonaro apresenta o mesmo padrão escatológico e desumanizador. O mecanismo é o mesmo: a criação de um “outro” abjeto para consolidar uma base de poder.
Bolsonaro frequentemente recorre a linguagem chula e ofensiva, muitas vezes direcionada a grupos minoritários, opositores políticos e até chefes de Estado.
Mulheres: Seu discurso misógino é notório, com ofensas diretas que objetificam e reduzem mulheres a partes do corpo ou a meros instrumentos sexuais. Ao invés de adversárias políticas, tornam-se “feias” ou “vadias”, negando sua dignidade e agência.
Minorias e Indígenas: Grupos como quilombolas e indígenas são rotulados com termos que lhes negam a condição de cidadãos de pleno direito. O discurso de Bolsonaro frequentemente os retrata como entraves ao “progresso” e “parasitas” do Estado, uma tática que ressoa com a lógica de chamar imigrantes de “sanguessugas”.
Oposição Política: Ao invés de opositores ideológicos, a esquerda e críticos são rotineiramente chamados de “ratos”, “marginais”, ou são instigados a “comer capim” – mais uma vez, reduzindo-os a seres inferiores ou animais, removendo qualquer possibilidade de debate civilizado e democrático.
A Orientação Estratégica de Steve Bannon: Inundar a Zona
Essa lógica desumanizadora encontra um paralelo direto com a orientação estratégica do ideólogo da direita global, Steve Bannon, ex-estrategista-chefe de Donald Trump. O método Bannon pode ser resumido em sua famosa máxima: “Inundar a zona com merda” (flood the zone with shit).
O objetivo não é apenas mentir, mas gerar uma avalanche constante de controvérsia, escândalos fabricados e, crucialmente, declarações chocantes e desumanizadoras, como as de Trump sobre os somalis. O ruído deliberado tem duas funções:
Distorção da Realidade: Anestesiar o público com o absurdo, impedindo que fatos concretos e tópicos indigestos — como o “efeito bumerangue das tarifas” ou “perda de popularidade” — cheguem ao debate público.
Manutenção da Polarização: Garantir que a base de apoio permaneça mobilizada e, sobretudo, em constante estado de indignação contra o “inimigo”. A desumanização fornece a munição ideológica para a guerra cultural permanente, onde a verdade é irrelevante e apenas a lealdade importa.
O Objetivo Derradeiro: Dominação pelo Medo
A desumanização é o passo inicial para o objetivo final de dominação pelo medo. Ao transformar o imigrante em “assassino” ou “lixo”, e o opositor político em “rato”, o discurso da direita constrói uma ameaça existencial.
O Medo do “Outro”: O imigrante é pintado como uma “inundação” de “sanguessugas” que roubará empregos e corromperá a cultura.
O Medo do Caos: A oposição política é descrita não como um grupo com ideias diferentes, mas como agentes do caos ou do comunismo.
Essa retórica alimenta o medo constante na população, que então passa a aceitar — e até a exigir — medidas autoritárias e repressivas, como a “caçada higienizante” de deportações em massa. A contratação de 10 mil novos agentes de deportação com grandes bônus é a materialização do medo em estrutura de Estado, transformando a máquina pública em um instrumento de perseguição do “Eles.”
A mensagem é clara: o líder forte (Trump, Bolsonaro) é o único capaz de proteger o “Nós” da abjeção e do caos dos “Eles.” A desumanização, portanto, não é um deslize retórico; é uma ferramenta de engenharia social projetada para converter a aversão em submissão e o medo em poder.
Chico Cavalcante é jornalista, escritor e consultor político